Flamengo é o maior. Isso não é novidade. Mas o tamanho da vantagem e o que aconteceu com os rivais nas últimas pesquisas — isso sim merece atenção.
Duas pesquisas recentes traçam um panorama detalhado das maiores torcidas do Brasil. Uma foi encomendada pela própria CBF ao instituto Nexus, que ouviu 2.006 brasileiros de todos os estados entre agosto e novembro. A outra é o levantamento do O Globo em parceria com a Ipsos-Ipec, que entrevistou dois mil pessoas em 132 municípios. Os números variam entre as metodologias, mas as tendências batem. E algumas delas são bem reveladoras.
O ranking das maiores torcidas do Brasil em 2026
Pela pesquisa CBF/Nexus, que considera apenas quem declarou torcer por algum clube, o Flamengo aparece com 26% das preferências. O Corinthians vem em segundo, com 19%. Depois: São Paulo (9%), Palmeiras (7%) e Vasco (5%).
Já o levantamento Ipsos-Ipec, que considera a população geral sem filtro de "torcedor declarado", traz percentuais menores, mas a ordem no topo é a mesma:
- Flamengo: 21,2%
- Corinthians: 11,9%
- Palmeiras: 6,5%
- São Paulo: 6,4%
- Vasco: 3,4%
- Grêmio: 3,0%
- Cruzeiro: 2,3%
- Atlético-MG: 2,3%
- Bahia: 2,2%
- Santos: 2,0%
- Internacional: 1,7%
- Botafogo: 1,5%
- Sport: 1,3%
- Fluminense: 0,9%
- Fortaleza: 0,7%
- Ceará: 0,7%
A margem de erro da Ipsos-Ipec é de 2 pontos percentuais. A da CBF/Nexus, também de 2 pontos, com 95% de confiança.
Flamengo: isolado e distante
O Flamengo não apenas lidera. Lidera com uma diferença que nenhum outro clube consegue ameaçar no curto prazo.
Na Ipsos-Ipec, a vantagem para o Corinthians passou de 6 para quase 10 pontos percentuais em relação à edição de 2022. E isso aconteceu enquanto o próprio Flamengo oscilou levemente para baixo, de 21,8% para 21,2%. Os concorrentes simplesmente encolheram mais. É um domínio que se sustenta por erosão alheia tanto quanto por crescimento próprio.
A queda do Corinthians preocupa
Esse é o dado mais impactante do levantamento Ipsos-Ipec. O Corinthians caiu de 15,5% para 11,9% entre 2022 e a pesquisa mais recente — uma retração de quase 4 pontos. Para ter ideia do que isso representa: a margem de erro para o clube é de 1,4%. A queda foi mais que o dobro disso.
Não dá pra atribuir a um único fator. Mas anos de instabilidade institucional, crises financeiras e campanhas abaixo do esperado cobram seu preço em torcedores menos engajados. Parte desse público simplesmente parou de se declarar corintiano nas pesquisas.
É o tipo de sinal que uma diretoria deveria levar a sério.
Palmeiras passa o São Paulo — e a briga é técnica
O São Paulo era o terceiro colocado em 2022, com 8,2%. Hoje aparece com 6,4%, atrás do Palmeiras, que recuou de 7,4% para 6,5%. Numericamente, o Verdão está à frente. Mas dentro da margem de erro, os dois rivais estão tecnicamente empatados pela terceira posição.
Mesmo assim, a inversão é simbólica. Palmeiras venceu mais, brigou por títulos, e isso parece ter sustentado sua base melhor que o rival do Morumbi.
Quem cresceu: Bahia, Atlético e Botafogo
Num cenário de queda geral entre as grandes torcidas, três clubes nadaram contra a corrente. Bahia, Atlético-MG e Botafogo foram os que mais cresceram no recorte analisado pela Ipsos-Ipec, dentro da margem de erro. O Bahia subiu 0,5 ponto percentual; Galo e Glorioso, 0,2 cada.
São variações pequenas, mas significativas num universo em que a maioria perdeu espaço.
O dado que ninguém fala: o crescimento do "nenhum"
Mais brasileiros estão declarando não torcer para clube nenhum. E isso ajuda a explicar por que as sete maiores torcidas do país recuaram juntas na Ipsos-Ipec entre 2022 e a edição mais recente.
Na pesquisa CBF/Nexus, 22% dos entrevistados disseram não ter time. É um número alto. E esse público está crescendo, especialmente entre faixas etárias mais jovens que consomem futebol de forma mais fragmentada, por streaming e redes sociais, sem necessariamente criar um vínculo clubístico forte.
O futebol segue popular — 47% dos entrevistados pela Nexus dizem assistir pelo menos um jogo por semana. Mas o vínculo com um clube específico está ficando mais raro.
Como os brasileiros consomem futebol hoje
A pesquisa CBF/Nexus também mapeou os hábitos de consumo. A TV ainda domina: 77% acompanham os jogos por alguma mídia, seja aberta, fechada, rádio ou streaming. Ir ao estádio? Só 19% dos entrevistados frequentam as arquibancadas. Outros 22% já foram, mas pararam. E 59% nunca viram um jogo ao vivo na vida.
Cinquenta e nove por cento. Nunca pisaram num estádio.
É um dado que contextualiza muito a discussão sobre preços de ingresso, infraestrutura e acesso ao futebol no Brasil. A maioria dos torcedores vive a relação com o clube exclusivamente pela tela.
O que esses números dizem sobre o futebol brasileiro
O Flamengo segue numa categoria separada. Corinthians ainda é segundo, mas está perdendo terreno de forma preocupante. Palmeiras e São Paulo travam uma disputa apertada pelo terceiro lugar. E lá embaixo, times como Bahia e Botafogo ganham espaço devagar, num reflexo direto de boas campanhas recentes.
Mas o retrato mais honesto dessas pesquisas não está nos percentuais dos clubes. Está no crescimento do desinteresse. O Brasil ainda é um país de futebol, mas a fidelidade ao clube está menos garantida do que era há uma década. E isso muda tudo: receita de sócio, audiência, poder de negociação com patrocinadores.
Quem não entender essa tendência vai sentir na conta.
Fontes: Pesquisa CBF/Nexus (2.006 entrevistados, agosto/2025) e Pesquisa O Globo/Ipsos-Ipec (2.000 entrevistados, junho/2025, 132 municípios). Margem de erro de 2 pontos percentuais em ambas.